A Falsa Baiana

postado por: Bela Figueiredo 10:12

Terça-feira, Junho 29

"Ô, seu moço do disco voador, me leve com você aonde você for"
Hoje eu queria estar em outro lugar sob outra forma.

No espaço, poeira cósmica. Em Davis, ser um de guarda-sol fincado na areia, olhando pro mar. Em qualquer parte, mato crescendo junto à parede úmida e deste lugar que estou agora, desaparecer... Me materializar na Sotheby's como um Gauguin. Ou ser uma revista largada sobre a mesa por alguém que fumou e tomou café, aqui mesmo em Porto Alegre. Ser uma cerejeira no Japão; uma baleia em Noronha; um tricô nas mãos de uma velhinha ágil. Queria ser as contas de um colar que uma índia coloca uma a uma no fio, pensando no que vai comer. Grudada na terra fofa, uma gérbera pink e feito pluma, planar entre golfadas de ar quente.

Um vaso quebrado, mesmo colado, é sempre um vaso quebrado. Sou outra. Sou todas. Sou muitas. Como alguém disse, tenho mutidões gritando dentro de mim. E, definitivamente, este não é o meu lugar. Isso não me entristece mas me faz olhar pra dentro e isso sim é estar em todos os lugares. Nada pode ser mais confortável do que encontrar-se. Essa sensação de reconhecer-se, sentir o que é e o que quer nos denuncia e aí é irreversível: não podemos viver este como um dia qualquer. É preciso transmutar. Comments:

postado por: Bela Figueiredo 13:53

Segunda-feira, Junho 28

Um pouco mais tarde, mas nunca tarde demais...
A quarta estória das segundas, de Gustavo Machado.

Primeiro chá de domingo
O relógio da sala anunciou a madrugada de domingo. Moskat arregalou os olhos na semi-escuridão do quarto de móveis pesados que haviam sido dos seus avós. No cabide, próximo à janela com as venezianas entreabertas, o terno negro que usara na sinagoga parecia agora um enforcado. Um presságio venenoso como o negror dos móveis e do terno e da noite que se despedia abraçou seu corpo magro. Se a Srª. Moskat ainda dividisse a cama com ele, não teria medo. Mas o barqueiro já a buscara e ela há anos esperava pelo marido do outro lado do rio, tricotando mantas e ouvindo valsas pelo rádio. Do escuro surgiam rostos medonhos no teto, entre o guarda-roupa e a cômoda, na entrada. Caretas com dentes arreganhados. "Estou morrendo", ele pensou. "Morrer é assim?". Acendeu a o abajur e se sentou na cama. Esfregou os olhos, enrolou-se com o roupão atoalhado, calçou as pantufas e foi até a cozinha. Precisava de um chá. Acomodou-se à mesa em meia-lua e ficou observando a chama que aquecia a água. Se morrer fosse só isso, estava pronto. O vapor da água quente começou a sair pelo bico da chaleira. Cerrou os olhos e enxergou, como se ele mesmo tivesse visto, a chaminé do navio que trouxera seus avós da antiga Polônia. A chaminé fumava, a embarcação cruzava o oceano e ele, Moskat, não era sequer uma centelha de vida. Era no máximo uma improvável lembrança invertida, uma recordação do futuro. Logo vieram também os cheiros e as vozes da sua infância e o pai lhe contando que havia um bom romance que falava de uma família Moskat. Depois sentiu os lábios tocados pelo primeiro beijo da deslumbrante Larissa, sua Larissa Moskat, em baile da Sociedade Israelita. Essas recordações foram estufando de vitalidade o menino-velho Moskat. O ar que respirava se transformou em uma deliciosa iguaria. Sorvia com voracidade de recém-nascido o oxigênio disponível em sua cozinha. Logo não havia em seu peito mais espaço para dor e nem caretas e enforcados que o fizessem sofrer. Preparou seu chá e foi até a sala. Espiou a calçada lá embaixo. Escreveu o próprio nome na janela embaçada pela respiração. "O senhor que espere mais um pouco", ele disse em voz alta, não sabia direito a quem. Talvez ao barqueiro. Se quisesse buscá-lo, que viesse mais adiante pois ele ainda tinha muito a fazer. Precisava reeleger o vereador da comunidade, visitar a Polônia, maravilhar-se com as trocas de estações, ler os jornais, comer empadas, suar no verão e tiritar no inverno e sentir nas retinas o vermelho-ardente do pôr-do-sol e dar pipocas às carpas do parque e contar histórias do Leste Europeu para o sempre menino Bartolomeu, o bom filho que a Natureza o deixara escolher. "Não. Hoje eu não vou", decidiu, movimentando o saquinho de chá como se badalasse um sino de cabeça para baixo. Comments:

postado por: Bela Figueiredo 09:53

Deus não está dormindo
Sábado me fizeram uma GRANDE SURPRESA: a Inês e a Mana apareceram lá em casa com o MOUSSE, o filhotinho de lhasa apso que eu tanto queria e não tinha grana pra comprar. Pois elas fizeram um vaquinha e trouxeram o baby de presente adiantado de aniversário. Ele é quietinho, mas bem saudável, brinca bastante sem latir e não estranhou a Pantufa e vice-versa.

Na verdade, acho que as gurias se enganaram e me trouxeram um filhote de sagüi porque o MOUSSE tem uma cara de macaquinho... Coisa mais... mais... ah, só vendo! Ele é indescritível.

Bueno, agora a parte ruim: como tem gente recalcada nesse mundo. Já fiquei sabendo por "bocas de Matildes" que criticaram a quantia generosamente ofertada por meu amigo Arthur para comprar o MOUSSE. Ah, gente, cada um com os amigos que merece, carregando o peso da própria existência e das suas escolhas... Ganhamos apenas o que ofertamos - nem mais nem menos. Enfim, cada um com o seu cada qual, tá?

Longa vida a MOUSSE, o bebê mais fofo da galáxia. Comments:

postado por: Bela Figueiredo 18:26

Quinta-feira, Junho 24

Algo de sagrado na compulsão
Eu e a Pantufa não estamos dormindo quase nada de aflição: queremos um filhote de lhasa apso para ser filho e irmão, respectivamente.

Os caros podem questionar: por que não adota, então? Respondo: onde eu moro há uma convenção de condomínio que PROÍBE a permanência de cães de grande porte, guarda e que latam demais. Por mim, ia sábado mesmo no Cantinho da Adoção e pegava um guaipequinha bem delícia, mas não dá.

Então, eu e a Pantufa conversamos muito e chegamos à conclusão que um lhasa seria perfeito pra nós: pra mim, por causa da chateação do edifício e pra ela porque se trata de um cão calmo, dorminhoco e quieto - quase um gato persa, feito ela.

Cultura útil - Raça originária do Tibet, o lhasa apso é pequeno - tudo o que o meu meigo condomínio permite - e há 500 anos era criado por monges e oferecido como presente, prova de gratidão e respeito. Reza a lenda que os mais belos exemplares habitavam o Palácio do Dalai Lama.

Definitivamente, não é tão mundano querer um.

Dêem uma olhada:

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postado por: Bela Figueiredo 11:18

Terça-feira, Junho 22

Drops
Gosto de ver a casa ficando com a minha cara. O bonsai bem adaptado, a pimenteira que sobrevive ao tapas da Pantufa e o sol cobrindo parte do tapete da sala. Na geladeira, creme de legumes, iogurtes e muita Coca light. É bom cozinhar só pra mim e o que gosto. O edredon de listrinhas é um luxo! e a cadeira de balanço da minha avó, pura poesia. O cheiro de lavanda passeia pelo quarto e olhar pra TV desligada é alcançar o nirvana.

Domingo foi dia de organizar fotografias e reviver bons e maus momentos. Revi as fotos do meu casamento [bom]; dos meus bichinhos Badu, Gordo, Freud, Mizí e Brahma [delicious]; de infância [bom e ruim - eu não gostava de ser criança]; da praia com amigos e dias de sol e biritinhas [ótimo], enfim, vi o mesmo filme outra vez, rebobinei a minha história e isso foi legal e chato.

Gosto de ficar sozinha e descobri isso sozinha, obvious. Sempre vivi com muita gente [4 irmãs, 1 pai, 1 mãe, no mínimo 2 empregadas, 1 tia-avó perfeita, gatos, cachorros, coelhos, passarinhos {não todos ao mesmo tempo} + os amigos, vô e vó ocasionais]. Depois, casei. Tinha o Dani, a Badu, o Gordo, o Freud e a Cleo. Agora, sou eu e a Pantufa e, em breve, haverá também um cachorrinho. Mas a questão é que não tenho pessoas comiga. Sou eu, me and my self. E isso é bacana. Tinha pânico de ficar sozinha e agora descobri que revistas, livros, música, quase nenhuma TV e telefone são bons partners. O melhor de tudo é perceber que estar quieta, sem qualquer interferência, também é divino. Conviver com os próprios pensamentos é salutar.

O que mais? Perdi o rumo de casa no sábado à tardinha depois de diversos chopps no Café do Lago com a Tali, a Samantha e o Lauro. Como diria a minha mãe: "ovelha não é pra mato". Fiquei dois anos sem beber e depois que me separei tomei uns dois ou três tragos - acho que esse foi o quarto -. Vou fazer 28 anos e um pilequinho aos 18 é bem diferente... Enfim, sopinhas até hoje, muita água e calma nessa hora. Comments:

postado por: Bela Figueiredo 09:23

Segunda-feira, Junho 21

Estória do dia
A terceira estória de Gustavo Machado, conforme combinado, aqui na "FARSA":

Pelo avesso da receita
Lola guardava as compras pensando no homem estranho da lojinha. Incomodada com o sujeito branco com esgares de retardado ou deficiente auditivo. Mas só no início. Só até mostrar as mãos quentes e o sorriso perolado. E o que mais? Mais nada. Mesmo? Lola foi acomodando cada coisa no seu devido lugar. Guardanapos, castanhas, fósforos, chocolate em pó, alfinetes e linha. Ao depositar os envelopes de fermento no interior da segunda porta do armário aéreo, lembrou com mais intensidade do rosto do homem. O que havia naquele semblante mudo e inodoro e insipiente e mesmo assim cheio de promessas de sons e aromas e sabores? Era como cozinhar ao contrário: ver o prato pronto para só depois escrever-lhe a receita. Receita ao avesso. Não estava acostumada. Um fio de desamparo, três notas de ardor, quatro medidas de tristeza antiga, duas xícaras de dignidade, dois dedos de desespero e um galão inteiro de humanidade. Lola correu até sua janela predileta e acariciou o gato que dormitava apanhando o último sol da manhã de sábado acomodado temerariamente ao parapeito. Às pontas dos dedos de cristal, Lola sentia o ronronar do gato lembrando das mãos tenras e ternas e tensas do homem de pouco tempo atrás. Ah, e que mãos deliciosas! Tivera a impressão de que ele tentara tocar-lhe os dedinhos de propósito. Ou ela mesma teria conduzido o contato discreto na hora de apanhar troco? O fato é que se tocaram e aquele roçar fugaz foi suficiente para que Lola imaginasse essas mãos quentinhas lhe consolando as cólicas ou acariciando os pés maculados por horas calçando salto-alto. Era um bom toque. Tinha espécie de sabor-tátil, se é que isso existia, extremamente familiar. Quantos defeitos haveria por trás daquele conjunto infantil desprovido de qualquer beleza instantânea? E mais o quê? Casado? Idade? Nome? Crimes? Vícios? Debilidades? Ela já o encontrara diversas vezes, nas compras. Mas só nessa última percebera-o. Tomando o gato nos braços, deixou-se cair na poltrona vermelha que também acomodava o sol. Tirou os sapatos e deixou as solas dos pés plantadas sobre chão de madeira delicadamente aquecida. Ficou pensando na tranqüilidade de ser um gato. Concentrou-se nessa idéia. Se pudesse, seria um gato e tomaria sol aos sábados e não pensaria nunca mais no homem da lojinha. Era assim? Comments:

postado por: Bela Figueiredo 10:48

Quinta-feira, Junho 17

Só um postzinho não dói
Pardon, queridos, não tenho respondido todas as mansagens - e foi só um dia fora -, mas enfim, tô atrapalhada, cansada, muito trabalho. Preciso fazer um programinha bacana hoje à noite pra não enlouquecer de vez. Quem se habilita?? Bela telegráfica se despede. Comments:

postado por: Bela Figueiredo 09:49

Terça-feira, Junho 15

Questão de timming
Tô sempre fuçando em blogs - minha nova paixão! Descobri um prazer enorme em bisbilhotar a vida alheia, da mesma forma que exponho a minha. Entre esses diários todos têm um monte de bosta, mas o Pensar Enlouquece, Pense Nisso, do bródi Inagaki [japa é foda] é bacana demais. Eu recomendo.

Numa dessas espiadinhas no Pensar..., achei esse pensamento [pô mina, quanta redundância!] - nada brilhante, mas esclarecedor - do Orlando Tosetto Junior:

"O amor nem sempre pára na rua pra nos cumprimentar. Às vezes chegamos esbaforidos num lugar e ele acabou de sair. O lugar onde se sentou ainda está quente. A marca de sua bunda, em forma de coração, ainda é visível, mas estamos atrasados. Noutras vezes chegamos cedo demais, e nos enchemos e vamos embora antes que ele apareça - se é que aparece".

Inagaki: tu é o cara!

Pessoas, atenção: é tudo uma questão de timming. Relógio na hora certa, olho vivo, faro fino e fuerza na intuição. Não tá morto quem peleia. Comments:

postado por: Bela Figueiredo 16:56

Segunda-feira, Junho 14

Porque Brasília não é Gravataí?
Amo esses dois e morro de saudades!


Krishna e Neno Comments:

postado por: Bela Figueiredo 09:14

Arejando
Já que sou uma chata de marca, resolvi que toda segunda-feira vamos colocar a cara na janela e deixar a cabeleira voar aqui na Falsa Baiana. E como não poderia deixar de ser, vocês iniciarão as semanas com uma nova estória de Gustavo Machado [ver post Amizade, culinária e literatura], que pode ser lida avulsa ou em seqüência. Quer dizer, quem leu a primeira, lerá a segunda com uma possibilidade de continuação que não precisa ser levada em conta por quem está lendo somente a última. E isso é idéia do Gus [então deve ser boa]. A estorinha anterior chama-se Como se Lola vestisse luvas. Ficaram mudos de emoção, non?!

Se os anjos fossem mudos
Bartolomeu acordou naquele sábado sem sabê-lo especial. Mal se instalou no balcão e ouviu Sr. Moskat se despedindo. Escutou os guizos metálicos da porta da loja de secos e molhados. Uma lufada de ar matinal lambeu o estabelecimento enquanto o patrão passava pela porta. Depois da lufada fugaz de ar fresco, voltaram os mesmos cheiros rançosos de sempre e o mesmo pó sobre os mesmos móveis e prateleiras de sempre e o mesmo ar viciado de sempre. Bartolomeu acompanhou os passos curtos do curvado Sr. Moskat lá do lado de fora da vitrine como se assistisse aos movimentos do velho através de uma câmera de cinema. Saiu do enquadramento. Corta. Não havia motivo para que Bartolomeu se descobrisse ainda mais solitário do que se sentia nas manhãs de sábado, os únicos momentos em que o Sr. Moskat deixava o estabelecimento para cumprir suas obrigações religiosas. O que haveria de negativamente especial? Tinha uma vaga idéia. Passava-lhe pela cabeça que a cada sábado dos últimos 20 anos o Sr. Moskat estava mais velho e que, muito em breve, não haveria mais sábados de solidão porque também não existiriam mais segundas nem terças nem quartas nem quintas nem sextas-feiras gostosas para ouvir ao lado do aquecedor a óleo aquelas histórias todas da fuga dos Moskat do Leste Europeu para Nova York e de lá para a Argentina e de lá para o Bom Fim, onde o avô do Sr. Moskat, já muito, muitíssimo velho, instalara aquela mesma lojinha em que ele, Bartolomeu, mesmo sem ser europeu nem Moskat nem judeu e apesar do nome de santo católico, trabalhava havia duas décadas, depois que sua família empobrecera e ele passara a varrer o pátio da sinagoga por algumas moedas que lhe dava o rabino Mendell até conhecer o bom Sr. Moskat, até aquele sábado seu único amigo, que o acolhera na lojinha. Ele pensava nesse amigo que envelhecia com voracidade e o que seria de seus dias depois da morte do bondoso Moskat quando os guizos da porta soaram e uma moça passou pela porta e avançou na sua direção. Pediu três vezes um produto qualquer. Mas ela era tão linda que Bartolomeu não lhe ouvia a voz. Tão linda que parecia um anjo a mexer a boca sem que dela saísse qualquer som. Maravilhado, iluminado, beatificado, Bartolomeu sorriu sem economia e esqueceu a morte do bom Moskat e ficou pensando se os anjos seriam mudos. Comments:

postado por: Bela Figueiredo 15:38

Sexta-feira, Junho 11

Agrade-a com toucinhos ou Pequena estória de Margueritte
Margueritte é uma suíça, de 32 anos, que veio passar um mês em Porto Alegre. Estudante de Sociologia, escolheu a Capital gaúcha para fazer o estágio de conclusão de curso. Acabou ficando. E com Pedro, da banca 19 do Mercado Público, que lhe apresentou os melhores defumados em bisnaga do mundo. Margueritte apreciou demais o aroma, gosto, forma e a cor dos embutidos locais. "Em Vevey não temos isso", comentou entredentes com sua ex-colega de quarto (quarto esse que habitou por uma semana, até o dia em que foi visitar pela primeira vez o Mercado Público). E na cátedra de Sociologia faz questão de ser apenas diletante. Tornou-se exímia degustadora de carnes. Comments:

postado por: Bela Figueiredo 09:35

A Casa
Quarta e quinta-feira fiquei naquela de receber e instalar coisas e cheguei a uma conclusão: o mercado de mudanças é estritmente masculino. Só numa manhã estiveram lá em casa: o cara da CEEE, dois brutamontes da transportadora, o instalador das redes de proteção de janelas [tudo pela Pantufa], dois rapazes da Tok Stok e o cara da geladeira. Depois do caminhão da mudança, receber geladeira e móveis, ligar luz et all, duas notícias - uma boa e uma ruim: a boa é que já tinha telefone funcionando no apartamento e pela Lei de Murphy meu celular deu pau bem na hora do tumulto. A ruim é que o chuveiro estava queimado e isso foi constatado às 10h da noite de quarta-feira [e eu exausta].

À noite, o Gus foi me visitar - minha primeira visita! - e fomos fazer a transição da Pantufa [casa da Ana para casa da Bela, aliás, nossa casa]. Não foi tranqüilo - gatos odeiam se mudar - mas naquela mesma noite a Pan já fez cocô e xixi na caixinha de areia e se alimentou.

A primeira noite sozinha foi bacana - fora ter de dormir sem tomar banho depois de camelar o dia todo [minha vontade era de passar papel-filme em todo o corpo pra não contaminar meu bercinho]. Voltando à pauta: achei que ia me sentir estranha dormindo solita, que teria de dividir o sono como fantasminhas nada camaradas, mas correu tudo bem até porque Deus não está dormindo. Pantufa se aninhou comigo e aquele rom-rom foi como Diazepan.

Agora já tá [quase] tudo arrumado pois contei com a ajuda da Inês e da Lêla [grazie, meninas].

Quinta foi dia de papi e mãmi me visitarem. A Suely - minha amiga - também apareceu. A Lêla instalou o chuveiro e a Inês a máquina de lavar roupa [eh, mulheres brutas]. De noite, todo mundo queria rua e eu clamava por quietude. Vivo de reencontrar, agora.

Silêncio... Silêncio... Silêncio... Silêncio... Silêncio... Silêncio... Silêncio... Silên... Comments:

postado por: Bela Figueiredo 16:52

Terça-feira, Junho 8

Exagerada
Já que tem Cazuza nos cinemas, sexta-feira, parafraseio o poeta para contar o que há para além das caixas, dos peões furando as parades, do sobe e desce nas escadas, das plantas dormindo no tanque e das meias em sacos de lixo:
"Não amo ninguém
Parece incrível
Não amo ninguém
E é só amor que eu respiro"

Comments:

postado por: Bela Figueiredo 14:46

Segunda-feira, Junho 7

Bela e Pantufa têm uma casa nova
Isso mesmo, queridos, quarta-feira tô me mudando de mala e cuia. Que delícia! Ando assoviando por aí. Tô sem palavras. Quem sabe que fale: "Senta-te ao sol. Abdica e sê rei de ti próprio". [Fernando Pessoa] Comments:

postado por: Bela Figueiredo 09:14

Sexta-feira, Junho 4

Amizade, culinária e literatura
Quem leu Gustavo Machado leu depois de mim.
Arrongante, prepotente, eu? Não, apenas possessiva com o que me é caro e esse cara faz parte da minha vida - aliás, a nossa história recente, de uns dez anos, acho, se mistura.
Bueno, o Gus é autor de "Sob o céu de agosto", de diversas crônicas e contos, jornalista da raia graúda, tocador de bossa nova ao violão como poucos, sensível, bonito, usa casaquinhos de lã, tem óculos sob o nariz, não gosta de futebol e ama gatos. Não, o Gus não é gay, creiam. Ah, e ele é home sick como eu [ih...contei, Gus], apaixonado pela Audrey Tautou e meu confidente. Não nos conhecêssemos tanto, seríamos amantes.

Ei-lo:
Como se Lola vestisse luvas
Lola abriu o envelope amarelo. Delicadamente vazio. Podia olhar lá no fundo. Espremeu-o e sacudiu-o até que seus dedinhos ficassem azulados. Nem resto havia. Um farelo sequer. Nadinha. Seco. Buscar fermento emergencial em tempo de forno já aceso é coisa de homem, ela pensou, enquanto uma nota triste devastava despretensiosamente as feições tenrinhas do seu rosto porcelana que preferiria a compostura serena. Tarde demais. Trabalho perdido, tempo perdido, amor perdido. Descobriu que não havia fermento quando gemas e farinha e açúcar-baunilha e leite morno e meia dose de licor de creme irlandês esperavam pela gentileza das suas mãos na vasilha de cerâmica bruta. Acariciou com três dedos de desespero as bordas do recipiente áspero pensando no desperdício de ingredientes e afeto. De afeto, sim, que ninguém cozinha em vão. Não há quem acenda forno e quebre ovos e estrague as unhas com o objetivo primário de reabastecer o estômago. O estômago é pouco. Entranhas físicas não sustentam. Houvesse ainda namorado ¿ fosse René, o último, Miguel, o do verão, ou mesmo Bruno, aquele mais antigo que vez por outra voltava -, houvesse ainda namorado em sua vida, ele certamente desceria correndo os quatro lances de escada do edifício sexagenário num trote desabalado ao mercado mais próximo ou ao único estabelecimento aberto em Porto Alegre. Iria até a Albânia, se necessário fosse, mas resolveria a questão do fermento e do afeto e das unhas. Seria um cavaleiro destemido em busca do pacotinho de sagrado. Nunca namorado fez tanta falta, ela pensou, surpreendida por uma lágrima preguiçosa que escorria espessa, quente e vagarosa do canto do olho esquerdo. Então Lola sovou à toa aquela massa que jamais vingaria. Sentiu a mistura adocicada entranhando-lhe as unhas recém manicuradas, esperando que cabeça e coração e canais lacrimais e cutículas se esvaziassem miraculosamente. Amassou a massa, esmagou a massa até que nada daquilo lhe dissesse respeito. Espremeu até esquecer do fogo aceso. Das unhas feitas. Do desperdício. Da lágrima chata e do cavaleiro. Amassou à indiferença. Amassou como se vestisse luvas. Comments:

postado por: Bela Figueiredo 16:06

Quinta-feira, Junho 3

Eu amo o trabalho do André Dahmer e já que estamos lidando com a pauta, vejam que bom:



Quer mais? Vai lá: www.malvados.com.br Comments:

postado por: Bela Figueiredo 11:35

Coisas que não devo fazer nos próximos meses:
- Gastar mais grana do que tenho [tendência das mulheres em geral, sejam elas comunistas ou consumistas e, em se tratando de leoninas, a probabilidade triplica];
- Sucumbir à carência que me assola porque acordar do lado de alguém que já foi "o" pode ser perigosíssimo ainda mais quando temos que tomar diversas e sérias providências relacionadas apenas a si mesma;
- Presentear meu paladar com ganachas [seria um desastre de proporções não-mensuráveis];
- Ter medo, já que ele petrifica e a hora agora é de "coragem, coragem se o que você quer é aquilo que pensa e faz/ coragem, coragem eu sei que você pode mais, muito mais!"
- Botar defeito em todos os homens que se aproximarem de mim porque eles são pessoas e não deuses [repetir isso como um mantra];
- Me 'encasular' na minha casa nova, só porque terei comigo a Pantufa, um cachorrinho [que nasce dia 6], edredons delícias e café a hora que eu quiser, além, é claro, de uma trilha sonora composta por pausas e silêncio.
Incríveis as minhas metas, não? Comments:

postado por: Bela Figueiredo 14:36

Quarta-feira, Junho 2

Em tempo:
Amigos, pai, mãe, irmãs, queridas: se alguma alma caridosa quiser me ver assim, melhorzinha, no famigerado Dia dos Namorados, tá aí a dica: livro do Snoopy.
Dengosa, eu?? Imagina... Comments:

postado por: Bela Figueiredo 14:32

Esse post do Dia dos Namorados causou muita polêmica... Bueno, li uma coisa bacana - sobre o mesmo tema - no Pensar Enlouquece. Por favor, sigam meu exemplo e leiam "Charlie Brown, a garotinha ruiva e o tal do amor". Comments:

postado por: Bela Figueiredo 10:02

O que vai ser do Dia dos Namorados sem um?
Melancólico, com certeza. Um pouco enjoadinho e triste também.
O primeiro sozinha de muitos amando. Vai se diferente, pois. Dane-se o dinamismo! Nasci para viver em dupla - definitivamente.
Faltam dez dias pro tal dia e já tô saturada de bombonzinhos e ursinhos nas vitrines, pop ups de toda espécie oferecendo descontos em motéis e facilidades nos pagamentos de perfumes, flores e um sem fim de quinquilharias. O que menos importa é o presente! O grande regalo é a presença. Tá, tem o folclore da preparação do dia, as surpresas feitas e recebidas, o friozinho na barriga, as delícias todas que todos amamos ofertar e ganhar, mas sem par não tem Dia dos Namorados.
Encarando a realidade de que engrenar um namoro até o dia 12 só acontece em filme água-com-açúcar estrelado pela Meg Ryan, o lance vai ser aproveitar o dia - um sábado, ao menos - pra fugir da Redenção [haverá centenas de casais se beijando]; ir ao cinema e ver um troço bem trash; brincar com a Pantufa; almoçar com amigos; ouvir música aborígene [pra não entender nada]; ler um uma revista sobre Pássaros [não correndo o risco de achar uma seção com dicas de "Presentes para Ele e para Ela"]; evitar falar ao telefone com a mãe que sempre me toca tão profundamente com suas palavras; comprar um presentinho pra mim, pois isso sempre desopila um pouco. Bom, isso tudo não adianta nada, mas ameniza. Voilá! Comments:

postado por: Bela Figueiredo 15:18

Terça-feira, Junho 1

Eu sabia que alguém já havia escrito o que sinto. Somos todos uns imitões mesmo.
"Sigo sendo sempre a mesma pessoa, mas creio ter mudado até os ossos." [J.W.Goethe] Comments:
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