|
A Falsa Baiana
postado por: Bela Figueiredo 12:03
Terça-feira, Agosto 31
Fotinhas
Bela e Rodrigo [amigaço! amo-te]; close da Pantufa; um dos meus olhos de boneca; e pic de
Catherine Jamienson.
Comments:
postado por: Bela Figueiredo 14:48
Segunda-feira, Agosto 30
Holiday celebrate + estória do dia
O fim de semana foi de programação intensa e deliciosa! Sábado à tarde: Redenção, amigos, chimarrão, solzinho, bons papos, muitas fotinhas... Depois, almoço na casa do Dé e mais Redenção. À noite, lançamento do Porto Alegre Em Cena com direito a malabares de fogo. Na seqüência, "festa estranha com gente esquisita" no Ocidente e a saideira tradicional no Van Gohg. Para o domingo reservei: soninho até mais tade, preguiça, Zaffari, banho no Mousse, chá de maçã, poquíssimos cigarros, miminhos na Pan, Cesária Évora [bálsamo para a alma], aniversário da Tetê e brincar de Barbie. Sim, eu aproveito as bonecas das filhas das minhas amigas pra me divertir. Enfim, bem bacana.
E segunda é Dia D, aliás, o Dia Dele. Essa Baiana tá muito exibida, né? É Paulo Bentancur, Gustavo Machado... Enfim, um mix de gente ótima. E falando nisso, G.M. tem algo a contar.
Às carpas
Os ponteiros dourados do relógio à corda do velho Moskat marcavam nove da manhã quando ele viu avançar pela curva que encerrava o túnel de eucaliptos o corpanzil do amigo que conhecera há dois meses e com o qual, desde então, repetia diariamente esse ritual. Exceto aos sábados, quando Moskat cumpria suas obrigações religiosas. E exceto aos domingos, quando Samir preparava o café da manhã às visitas da noite de sábado que haviam voltado a freqüentar o velho apartamento, mais antigo da vizinhança, para o qual ele regressara com seu gato. Acenaram-se ao primeiro reconhecimento; Moskat batendo com dois dedos nas altura das têmporas, Samir, erguendo a mão gigante e apertando os olhos-miniatura, como se assim enxergasse melhor o velho. Acomodados lado a lado em um dos bancos de cimento que circundavam o lago , cada qual com seu saco de pipocas, serviram o desjejum das carpas. Servir, alimentar, falar, comparar, concluir, reconhecer. Os temas eram recorrentes: a velha Polônia que Moskat conhecera por relatos de antepassados, o Líbano da infância magra e triste de Samir. O conflito Israel x Palestina. As convenções norte-americanas. As eleições municipais. A absoluta incapacidade do gênero masculino em compreender as mulheres. Passaram em revistas essas pautas todas. Era uma quarta-feira tranqüila como Samir prometera que seriam todos os seus dias, desde o desaparecimento de Sophia: dali em diante, trabalharia menos, gastaria mais dinheiro, faria amigos e retomaria a rotina das noites de sábado. Moskat também fizera-se uma promessa, desde a madrugada em que a morte viera apanhá-lo e ele não quis acompanhá-la: levaria a sério a máxima segundo a qual a morte não está onde estamos e não é enquanto formos. "Enquanto eu sou, ela não é. Quando ela for, eu já não serei. Jamais vai me encontrar", ele refletia, enquanto Samir lembrava que onde agora havia um café, em um dos extremos do lago, por muitos anos funcionou um bicicletário. Quando os ponteiros dourados do relógio à corda do velho Moskat marcaram dez da manhã, os amigos se levantaram. Samir andaria até o carro, onde o motorista o esperava para conduzi-lo à empresa. Moskat caminharia as três quadras que o separavam da loja onde o sempre menino Bartolomeu o esperava com uma xícara de chá.
Comments:
postado por: Bela Figueiredo 09:55
Sexta-feira, Agosto 27
Tchã-nã-nã-nãn
Aqui está a surpresinha de que havia lhes falado: Paulo Bentancur, que dispensa apresentações aos leitores mais ávidos, está na Falsa Baiana! Aos desavisados dou uma cola:
Natural de Santana do Livramento [RS], Paulo Bentacur é jornalista, escritor, crítico literário, redator e consultor editorial [ufa!]. É palestrante em escolas e universidades. Atualmente, trabalha na primeira biografia de Erico Veríssimo. E amanhã, no caderno Cultura, de Zero Hora, será publicado um artigo dele também sobre o pai do chato do Luiz Fernando Verissimo. Adianto outra: na terça-feira, sai no Segundo Caderno, também de ZH, uma resenha dele sobre o livro "O viajante transcultural - Leituras da obra de Moacyr Scliar", de vários autores.
Abaixo, a lista de obras do escritor:
- Agulha ou linha, quem é a rainha? (Ed. Projeto, 1992, em 5ª edição); A máquina de brincar (Ed. Solivros, 1995, esgotado), O que a bruxa escreveu (Ed. Solivros, 1995, esgotado), O Sem-fim (Ed. Solivros, 1995, esgotado), O menino que não gostava de histórias (Ed. Solivros, 1995, esgotado), As surpresas do corpo Difusão Cultural, 1997), Quem não lê, não vê (Difusão Cultural, 1997), Temas & Toques (Ed. Edelbra, 1997, esgotado), Os homens na caverna (Ed. Artes e Ofícios, 2001), É lógico, pô! (Ed. Artes e Ofícios, 2001), O menino escondido (Ed. Artes e Ofícios, 2001), O criador de monstros (Ed. Artes e Ofícios, 2001), As cores que tremiam (Ed. Artes e Ofícios, 2001), Entre o céu e a terra (Ed. Artes e Ofícios, 2001). Para adultos: Instruções para iludir relógios (Ed. Artes & Ofícios, 1994), A Feira do Livro de Porto Alegre (CRL, 1994), Os livros impossíveis (00h00.com, 2000) e Frio (Ed. Sulina, 2001). Obras coletivas: Nós, os gaúchos 2 (Ed. da UFRGS, 1994); Amigos secretos (Ed. Artes & Ofícios, 1994); A cidade de perfil (Secretaria Municipal de Cultura, 1995); A magia das águas (Riocell, 1997). Co-autoria: Rio Grande do Sul ¿ Cenas e paisagens (com Eduardo Tavares; Ed. Sulina, 1997). Organização e anotações críticas: Obra completa, de Simões Lopes Neto (Copesul/Já editores/Sulina, 2003); Grandes personagens da literatura gaúcha (Copesul/Aplauso).
Ah, PB [que ítima eu, non?] também recebeu diversos prêmios, veja:
- Menção Honrosa Prêmio José Lins do Rego 1979 (contos)
- Prêmio Apesul Revelação Literária em Conto (1979)
- Menção Honrosa Prêmio Escrita de Literatura (poesia)
- 2º lugar Prêmio Nacional de Poesia Sobre o Vinho (1984)
- 1º lugar Prêmio Nacional Hebraica de Poesia (1993)
- Prêmio Açorianos de Literatura Categoria Especial (Instruções para iludir relógios, 1995)
- Prêmio Tibicuera de Literatura Infanto-juvenil 1996 (O menino escondido).
Trata-se de um homem de listas.
Após esse salamaleque todo, ofereço aos caríssimos um dos contos que mais gostei, publicado no livro "Frio", de 2001, que de frio não tem é nada.
Fogo brando
A história é simples, elementar. Dalva não queria namorados, estava cansada do primarismo dos machos, da pressa que eles não sabem disfarçar. Eu não tinha pressa: isso era uma vantagem mas não garantia coisa alguma. Dalva me olhava sem atenuar a desconfiança. Esperava eu dizer grandes frases, ambiciosas, construídas quase todas à base de promessas. Mas eu não fazia grandes frases e só prometia aparecer no dia seguinte.
Dalva ia se desarmando aos poucos, mas muito aos poucos, já que meu ritmo não permitia rapidez nem para seu experimentado ceticismo. Eu nem tentara beijá-la ainda, e já fazia um mês que nos falávamos.
No escritório de contabilidade onde Dalva trabalhava eu nunca aparecia, nunca. Não iria atrapalhá-la em pleno trabalho. Mas telefonava sempre quinze minutos depois do começo do expediente e quinze minutos antes do fim. Para lembrá-la que era lembrada, para lembrá-la que eu sabia lembrar. A memória é lenta, ela sabia.
Ligava sempre de um orelhão, com uma ficha apenas, deixando claro que seria breve. E só perguntava como ela estava, como as coisas iam na vida pacata que ela escolhera contra tantas ameaças.
Antes que ela mesma suspeitasse aprendeu que eu não seria uma ameaça. E foi ela quem propôs o primeiro cinema. Foi ela quem, na terceira saída, beijou furtiva. Foi Dalva a pessoa que traiu um princípio de impaciência. Eu tinha tempo, trinta e cinco anos vividos, mais do que o suficiente para não cair em tentações ligeiras e ainda possuía energia para saber esperar. É preciso força moral e força física para saber esperar. Eu me orgulhava dessa força, me olhava no espelho e via o rosto limpo de um homem de verdade. Os olhos de um homem onde se não há brilho não há estrela cadente.
Esperei, é o que devia fazer, é o que eu tinha ganho do mundo, sua lição de estrategista frio contra todas minhas ilusões esfaceladas durante a infância, a adolescência, a juventude e os primeiros anos de adulto. Esperei. Dalva me olhava, agora, já com aflição.
Eu tinha meu trabalho, ele exigia investimento a médio e longo prazo. Cansado de ver colegas sucumbirem em empresas fantasistas, eu não arriscava uma ação precipitada, e media meus lances, cozinhava a expectativa fútil da clientela, não oferecia além do que podia. Visitava as pessoas, fazia contatos, ia estabelecendo com o correr dos dias, das semanas, dos meses (minha meta eram os anos, saber conviver com os anos sem me antecipar a eles) relações de troca, de compra e venda onde a mola fosse a oportunidade e uma oportunidade é quase sempre uma aparição, uma fagulha única.
Um dia recebo um fonograma em minha casa: é de Dalva, e ela mostra os sinais inaugurais de uma ansiedade até então amordaçada. Quer porque quer que eu me decida. Me decidir? Um sorriso feito da mais funda tristeza corta minha boca.
Ligo para ela, não mais do orelhão: "é que..." E nada mais digo.
Ficamos uma semana sem nos falar. Minha carne quase não descansa, porém passo os dias na cama depois que volto das visitas aos clientes. Não tenho telefone. Não gosto de uma chamada estridente. Não quero contatos fáceis nem equívocos, tão fáceis de se criarem na vida. Dalva é essa fagulha? Preciso separá-la do que ela viveu e vive para vê-la melhor.
As pessoas se protegem do que verdadeiramente pensam e desejam numa existência de mentiras. Durante muito tempo Dalva foi traída pelo discurso e a violência dos outros, e quanto está diante de alguém que se nega a isso queixa-se da ausência de uma fala que conduz ao discurso que a deixou abandonada e reclama uma energia que é o passo inicial de uma violência que a ofendeu. É nela mesma que vive sua inimiga e se está pronta para trair-se, pronta estará para me trair.
Outro fonograma: Dalva. Diz que não me entende. Que agora estava levando fé mas está deprimida com minhas contradições. Contradições? Mas que afirmação minha foi desmentida por mim? Que aceno fiz e logo depois infielmente desfiz?
Chego ao espelho só por hábito: sei exatamente o que vou enxergar.
Comments:
postado por: Bela Figueiredo 17:17
Quinta-feira, Agosto 26
Tô bege
Vejam o absurdo:
"Desde a última segunda-feira, as provocações verbais e as ameaças de agressões físicas vinham se repetindo, culminando com o confronto generalizado ocorrido quarta-feira, 25, por volta das 13h30min, num restaurante da Avenida João Pessoa.
Desta vez, porém, as conseqüências foram mais sérias. Dois militantes da Frente Popular ficaram feridos e tiveram de ser levados ao Hospital de Pronto Socorro (HPS) para receber atendimento.
Pelo menos um dos agressores já foi identificado. Ligado ao PMDB, ele é praticante de jiu-jitsu.
Minutos antes deste conflito, quatro homens desceram de uma kombi identificada com material de propaganda do PMDB e agrediram militantes petistas que faziam panfleteação. Em seguida, tentaram invadir o comitê da Frente Popular, na Avenida Loureiro da Silva. A mesma ação já fora tentada na terça-feira, 24, no mesmo horário. Ainda na terça-feira, outro militante da Frente Popular foi ameaçado quando cuidava da faixa de propaganda localizada no viaduto Loureiro da Silva.
Na madrugada de terça-feira, quando saíam do estacionamento da TV Pampa, após o debate realizado na emissora, os carros da comitiva da Frente Popular foram cercados por militantes de outras coligações, que desferiram vários golpes de cabos de bandeira contra os veículos. O fato foi registrado na Polícia Civil.
A Frente Popular atribui estas atitudes ao desespero das candidaturas que não conseguem sensibilizar os eleitores com propostas sérias e viáveis para a cidade. E conclama a população de Porto Alegre a também repudiar qualquer ato de violência nesta campanha." [Nota expedida pela Mobilização de Campanha do MEU CANDIDATO, RAUL PONT].
Assino embaixo. Isso é um horror. E cadê a DEMOCRACIA que os candidatos alardeiam nos meios de comunicação?
Comments:
postado por: Bela Figueiredo 14:38
Extra! Extra!
Após uma transfusão, tem sangue novo chegando aqui na Falsa Baiana.
Aguardem!
Comments:
postado por: Bela Figueiredo 14:05
Terça-feira, Agosto 24
A estória do dia um dia depois
Um pouco atrasado e não menos charmoso, Gustavo Machado! Ah, e se aguentar o tranco, lá embaixo, postei umas coisinhas. Tem um pedido meu. Quem de vós será capaz de atendê-lo?
Por trás do ímã
Quando Samir despertou, a manhã de sábado já tinha chegado. Sentado sobre a base formada entre sua barriga e peito, o gato aguardava que ele retornasse ao mundo dos vivos e lhe desse de comer - começou a ronronar ao perceber que o dono abria os olhos. Bocejaram juntos, um contagiando o outro para novo bocejo. O sol cegou os olhos miúdos de Samir. Afagou o pescoço do gatinho e gritou por Sophia. Gritou mais alto. Gritou de novo e mais alto até que o gato se assustou e partiu do leito numa descarga elétrica, fincando as unhas das patas traseiras na barriga de Samir. Era comum que ela fizesse isso nos fins de semana: levantava-se mais cedo, comprava pães frescos e preparava um café horroroso numa grande demonstração de carinho ao libanês que a acolhera com amor incondicional. "Engraçado", pensou Samir, observando através da grande janela da sacada do quarto. "Engraçado Sophia ter feito eu me mudar de um prédio antigo para outro mais velho. Acho mesmo que este edifício é o mais velho do quarteirão. E olha que os prédios vizinhos são antiqüíssimos. Somados, chegam a meio milênio, talvez", ele refletiu, sentindo crescer lentamente, entre o céu da boca e a e língua, aquele inconfundível gosto de tragédia que antecedeu todos os seus piores momentos da vida. Como aquelas pessoas que estão morrendo afogadas, um filminho foi rebobinado na tela mental de Samir. Nos últimos meses, era como se ele e Sophia fossem seres absolutamente desprovidos de passado e futuro. Desprovidos e libertos. Livres de tudo que não dissesse respeito ao presente. Isso era amor, Samir, imaginava. Um caso clássico de amor. Amor em cargas industriais. Pensou em chamar por Sophia mais uma vez mas temeu que, na improvável possibilidade de ela o ouvir e a ele vir, flagrasse aquelas lágrimas que, insubordinadas, teimavam em pressionar-lhe os cantos dos olhinhos e verter em quantidade de calamidade pública. Rosto lavado, nariz entupido, Samir andou pelo apartamento sabendo que nada encontraria. "Você sabia que essa hora chegaria, velho Samir, seu estrangeiro burro", ele disse ao próprio rosto quando passou pelo grande espelho belga elíptico da sala. Sentiu vergonha do rosto inchado, da expressão infantil, do coração perdido, daquele presente negro que agora, pela primeira vez em meses, carecia de pretérito e futuro. Cozinha. Na porta da geladeira, fixada com ímã promocional da companhia de gás, uma folha branca dobrada. Samir suspirou sonoramente. Uma lança medieval traspassou-lhe costelas e órgãos vitais. Apanhou a folha. Sentou-se. Desdobrou-a. Abriu-a bem sobre a mesa, esmagou as dobras com as mãos grandes espalmadas até que o papel envergasse de tão liso. Então ele apoiou os dois cotovelos sobre o jogo americano da mesa semi-posta para o café que não haveria, segurou a cabeça na altura das orelhas, fungou duas vezes e leu a carta que começava assim: "Samir, meu amorzinho. Não me perdoe porque eu não mereço. Nunca".
Comments:
postado por: Bela Figueiredo 11:06
Pout pourri
Às vezes eu falo com as mãos.
Aliás, muitas vezes eu falo através delas, inclusive e principlamente, aqui. Quando criança, aprendi facilmente a linguagem dos sinais. E falando através das minhas mãos, digo aos caríssimos:
Webmail delícia: Tô a-man-do o Walla! É só chegar, se cadastrar e desfrutar de 1 gigabyte. Não é um luxo? O design é simples, o acesso fácil e tem um anti-spam providencial. O melhor é que não paga nada.
Fotas: Tenho passeado, diariamente, pelo fotolog do Frederico Mendes, fotógrafo que dispensa apresentações. Para mim, ele ficou muito mais atraente porque é louco por animais e sua casa funciona como a Arca de Noé. Desfrutem vocês também: Let the sun shine! * Deixa o sol entrar! e A dog a day, and cats too...
Pedido: Sou doida por ilustrações, gravuras, litogravuras, pinturas, enfim, imagens praianas, do cotidiano à beira-mar. Alguém pode me indicar sites de artistas/obras?
Isaac Bashevis Singer: Gustavo Machado me presenteou com "Inimigos: uma estória de amor", do escritor norte-americano de origem judaica. Singer, que nasceu na Polônia, foi prêmio Nobel de Literatura em 1978. Inclusive nosso escritor semanal aqui da Falsa Baiana, Gustavo Machado, fez referência a Singer em uma de suas séries... Lembram do Senhor Moskat? Pois entre os romances do primeiro autor da língua iídiche, destaca-se "A Família Moskat" que se passa em Varsóvia e mostra a destruição de uma família judia na passagem do século XIX para o XX. Clássico. Tem que ler.
Hábitos felinos: Pantufa mia às 7h30min, pontual e diariamente, para que eu abra a janela do quarto e ela se instale no parapeito. Ali, as horas escorrem por seus bigodes, enquanto caça passarinhos, escuta as conversas dos vizinhos e sente o vento bater em suas orelhinhas. À noite, por volta das 21h, se põe a miar para que eu abra a primeira gaveta do roupeiro. Toda lânguida, se acomoda - a ronronar - entre roupões felpudos, camisolas de algodão e pijamas de flanela.
Comments:
postado por: Bela Figueiredo 09:22
Segunda-feira, Agosto 23
Sem palavras...
...exclusivamente por preguiça vou postar essas imagens:
Tava uma delícia!
Comments:
postado por: Bela Figueiredo 17:10
Quarta-feira, Agosto 18
Aula de jardinagem ou Presságio
Quando moça, o corpo era esguio feito caule de papoula, mas na alma já tinha desvãos. Nas ocasiões especiais, usava flor na lapela e as flores secas, com odor de orquídeas, ficavam dentro de uma cesta de sisal, trazida da África, acho. A flor do seu sexo fora tocada profundamente apenas nos livros de poesia. A vida toda usou colônia de lavanda, mas as rosas sempre foram as flores de sua predileção. "Não é flor que se cheire", disse ao filho sobre a nora, há muitos anos. Não frequentou a fina flor da sociedade pois preferira admirar o próprio jardim. Esteve com os nervos à flor da pele quando o segundo filho nasceu. Teimava em utilizar flores de retórica para falar de temas banais. Foi criada feito flor de estufa, o que não impediu que se tornasse um galho seco. Sempre que via um lírio fazia o sinal da cruz, pois pensava em enterro. Inesperadamente, e a morte não bate antes de entrar, ontem à noite, uma braçada de lírios foi depositada à sua porta. Hoje, amanheceu fraca.
Comments:
postado por: Bela Figueiredo 10:04
Segunda-feira, Agosto 16
Anniversaire et histoire du jour
Foi uma delícia a minha entrada no Retorno de Saturno. Amigos fazendo homenagens-fofura; a rosa amarela do meu pai; poesia de Drummond, e-mails, mensagens no celular e [os meus preferidos] cartões escritos à mão; despertar com o ron-ron da Pan; visitinhas; preguiça a tarde toda; unhas cor-de-noiva; livro do Gus, CDs, bijoux, porta-retratos e cherinhos-delícia; doces personalizados; banho demoraaaaado; a única chatice do dia: uma gripe rondando; sol e calor; água tônica e papo; oração; silenciar em mim... Enfim, um luxo! E já que segunda-feira é dia de Gustavo Machado, appréciez!
Reinado e exílio de Sophia
Não gostava do apartamento nem do bairro: mudaram-se. Não gostava do carro de fim de semana, trocaram. Na dúvida entre 36 e 37, encomendava calçados estrangeiros com número quebrado. Trocou as obturações convencionais pelas de porcelana. Retocou a tatuagem. Tratou a celulite imaginária. Quis conhecer a Tailândia, ele a levou. Natal em Nova York, foram juntos. Queria ser pintora e Samir transformara uma peça do apartamento em atelier. Pincéis de marta, tintas, solventes, cavaletes, blocos para desenho, bastões de carvão, pastéis. Mas jamais sujara um pincel. Nunca um esboço. Sentava-se sobre a almofada persa, entre telas e tintas. Ali, olhos cerrados, o rosto recebendo a última nesga de sol da tarde através da janela de vidros duplos, era ali que Sophia sentia crescer a culpa hedionda pela própria indiferença ante a vida de rainha que levava nos últimos dois anos. Cartões de crédito, clube para freqüentar academia de ginástica e sauna e massagem. Salão de beleza quatro vezes por semana. Quem não rezaria três vezes ao dia agradecendo a sorte? Sophia não rezaria. Por quê? Por que não explodia de felicidade? Não sabia. Sentia o peito apertar sempre que o telefone tocava e a fotinho de Samir surgia no visor. E ele era o mesmo Samir de assado com hortelã, perfume amadeirado, beijos nas pálpebras. Gordo. Grande. Escuro. Charmoso. Encoberto por névoa azulada de bons charutos. Onde estava Samir? Era por esse Samir que nela não havia mais, que ardia seu pesar e gritava a saudade pungente do que desconhecia. E era o estranhamento ante esse homem que, ela sabia, não mudara um grama, er a essa estupefação por sua irreversível incapacidade em amá-lo e por ele ser amada que Sophia urrava muda enquanto o sol se despedia da tarde, mergulhando silencioso e lento no Guaíba que ela via de longe, quando se erguia da almofada persa encostava a testa à janela dupla. Pensou que ele poderia ser o eleito e despertar seu amor. Mas, agora estava certa, não fora provida dessa faculdade. Era assim sua natureza. Era este seu reinado. Reinado e exílio. Exílio de quê? Vislumbrou-se esposa adúltera de senador romano caminhando ao suicídio. Mordeu os lábios até sentir gosto de sangue. Sufocou o choro. "Algo tem que ser feito. Logo. Algo tem que ser feito porque já é tarde", ela pensou, olhando fixo nos olhos amarelos do gato que a vigiava. Teve a impressão de que o felino concordou, do modo como os felinos avalizam as decisões de humanos, muito eventualmente, prestando-lhes grande distinção. Concordou e deu-lhe as costas, elegante, em busca vã das saídas da calefação que não existiam no apartamento novo. Ele sabia que nada encontraria. E sabia que mesmo os seres mais sofisticados são passíveis de condicionamento e neurose.
Comments:
postado por: Bela Figueiredo 11:13
Sexta-feira, Agosto 13
Participação de Envelhecimento
Comments:
postado por: Bela Figueiredo 18:03
Quarta-feira, Agosto 11
Eu sei desenhar no Paint e sou feliz por isso.
A Empregada, por Bela Figueiredo
Também sou feliz porque:
- não me importo quando se importam;
- sei recuar;
- meu aniversário tá pertinho;
- Pantufa e Mousse guardam meu sono;
- faço terapia;
- Matisse existiu um dia;
- rezo;
- sei ser feia e bonita;
- as nuvens existem;
- Clarice Lispector me ensinou o que é a terceira perna e antes disso eu mesma já havia me livrado dela;
- de vez em quando posso comer ganachas;
- choro sempre que tenho vontade.
Comments:
postado por: Bela Figueiredo 09:39
"Chegou, chegou/ Tá na hora da alegria!"
O Gus continua a ser chicoteado nos 12 empregos em que trabalha, pois afinal de contas são cinco filhos pra sustentar, uma ex-mulher mais um séquito de fãs a convidar para cineminhas, jantares, motéis.
Valeu a pena esperar... Gustavo Machado nos trouxe hoje mais uma bela estória de Samir. Voila!
A proposta de Samir
"De todos estes edifícios, o nosso é o mais velho", Samir disse ao seu gato. Flertava com o dia cinzento enfiando o rosto através da basculante da cozinha enquanto o café marroquino era inundado por água quente. "Somados, temos séculos! Fantástico, não é?", repetiu ao bichano, que permaneceu impassível sobre uma das suas almofadas, ao lado do forno que aquecia os pães para o desjejum: é que não via sentido nessas observações temporais do seu dono, um bom homem com emoções desconexas. Era terça-feira de manhã e Samir não lembrava da última vez em que ficara em casa num dia assim. O café estava pronto. Samir preparou a bandeja. "Ela podia ficar aqui por uns tempos. O que acha?", perguntou ao gato, enquanto lhe servia um pires de leite morno desnatado. "Diga, gatinho, que tal?", insistiu. O gato bebeu sem muita vontade. "Ao contrário do que acontece conosco, os humanos machos se deixam subjugar totalmente por suas fêmeas. Deve ser muito difícil pra eles", o gato pensou, sem saber se deveria sentir pena ou orgulho pelo amigo, tão corajoso. Preferiu não responder. "O que teríamos a perder? Moral não nos importa. O dinheiro, temos tanto que não há quem nos tire tudo. Fora essas duas coisas, o que mais se pode levar de um homem?", inquiriu Samir, acariciando o dorso do gato. Por experiência, o animal sabia que quando os humanos regrediam o bastante para pedir conselhos a animais era porque já dispunham das respostas necessárias. Lambeu bigodes e patas e deixou Samir com suas reflexões. Foi escolher a saída da calefação mais adequada sob a qual se instalaria para o sono da manhã. No quarto. Sophia dormia naquela mesma cama desde a véspera, quando se ali se refugiara depois do programa fracassado com Beth e o velho. Estava acordada mas manteve os olhos semi-fechados na penumbra enquanto Samir pisava em um dos seus sapatos vermelhos de couro escovado a aço ao entrar com o desjejum. Só parou de fingir que dormia depois que ele lhe beijou as pálpebras. Sentiu o nariz gigante lhe espetando as maçãs do rosto. Aspirou-lhe o perfume amadeirado. Seus olhos vertiam lágrimas ardentes quando ela os abriu. Enrolou os braços em torno de seu pescoço e o abraçou com tanta força que o sufocaria à morte, não fosse um homem tão grande, gordo e escuro de quem não de pode tomar a vida. A respiração de Sophia em seu pescoço fez Samir sentir cócegas e rir e pedir socorro na língua dos libaneses. Quando ela finalmente começou a beber seu café e a morder o menor de todos os pedaços de queijo e mastigar aquilo por séculos, só então ele disse: "Sophia. Eu tenho uma proposta", o rosto tomado por medo e expectativa infantis. Ela pousou o indicador em riste sobre os lábios do homem. "Eu aceito", ela disse, muito, muito, muito baixinho. Tão baixo e sincero que somente o coração simples de Samir pôde ouvir.
Comments:
postado por: Bela Figueiredo 10:28
Terça-feira, Agosto 10
Rebobinando...
Nos últimos dias do meu Inferno Astral decidi que vou arrumar um namorado. Não assim, sair à cata, mas enchi de estar sozinha e quero uma "sainha preta" no armário. E tenho que fazer por onde, até porque hoje em dia nem o carteiro bate mais à porta.
É isso.
E em homenagem aos meus ex, que ajudaram a construir essa pessoinha sensível que sou, uma estorinha-jorro da época em que eu era feliz e não sabia.
Roleta russa
Pega essa boca e beija. Ah, só me faz um favor - vê se depois some porque é melhor pra mim e pra ti também nós sabemos que não dá e é bom tomar emprestado o traje do Homem Invisível e nunca mais! apenas sumir pra nunca mais te ver. Não te quero e sei que tu quer um pouco eu não agüento então some! (E o cara com os olhos transbordando feito Titanic naufragado matando aquela gente toda que carrega ali no lado esquerdo do peito). Dá uma de Sandra Sá quiçá Sandra sem "d" não interessa! "d" pra quê? (Stop. Review. Play. Roda VT.) A komander diz joga fora no lixo! então faz essa caridade e joga fora no lixo vai embora sem demora senão a gente chora... Antes vê se pega essa boca e beija e depois o dia que der vem buscar esse violão mudo que eu já não posso mas faz isso sem me avisar pode entrar sem bater por que a minha pessoinha prefere não te ver pra quê? Fere a fama e esquece essa pinta de galã de quinta... o teu disfarce não cola mais. Some! quem sabe um Camus e muito THC depois eu possa beijar essa boca sair muito louca daí sumir com um ator pornô barato que sabe exatamente onde colocar a língua já que o cérebro está de férias... ele sabe que quieto e ofegante basta e eu tenho noção que o ele não vai prometer construir casa de alvenaria com direito a varanda e cerquinha branca no quintal. Nada! Vai apenas esparramar o corpo-precipício para o meu lubrificar... Todos têm sido muito assim: obrigada, de nada, é sempre um prazer estar com você, brincar com você, deixar correr solto o que a gente quiser, te ter por aqui, nesse microcosmos entrelençóis. Pega essa boca e beija porque é íntimo demais estar só então não esquece vem aqui e desamarra as cordas da minha camisa de força que tô sufocada! Veja bem é viável o frenesi sem um maior envolvimento que eu já tô nessa merda até o pescoço e quanto mais a gente mexe mais ela fede. Pega essa boca e beija e me tira a venda dos olhos porque preciso ver que não vem das entranhas meu maior valor não é cash e pára com esse dramalhão mexicano. O corpo teu é preciso ao extremo pra eu agüentar toda essa conversa pra intelectualóide dormir vê se sai dessa! Larga meu sangue pega essa boca beija com gosto de fruta azeda e some pra eu nunca mais aturar essa cara linda e o revólver mirando o alvo úmido do meu ser feito apêndice desse teu corpo bandido. Pega essa boca e beija... ela não é tua só que necessito alívio e quando longe tenho a estranha sensação de estar fora de perigo. Me deixa aqui no abrigo... vou olhar prometo só pro meu umbigo mas antes pega essa boca e fere pra saber que pra sempre entre nós é definitivo. É nunca mais.
Comments:
postado por: Bela Figueiredo 10:01
Segunda-feira, Agosto 9
Imagens do Dia dos Pais
Precisa dizer mais?
Papito no Brique, mostrando o cartãozinho que fiz pra ele...
O bolo da Lis Fonseca
Bábi e Ana, na Redenção.
Comments:
postado por: Bela Figueiredo 09:53
Quinta-feira, Agosto 5
"Que todos os seres possam encontrar felicidade temporária e definitiva"
Em casa, entre a multidão descompassada; a dois, solo; numa carona, num mergulho, tomando um refri.
Durante as tarefas rotineiras - muitas vezes esmagadoras - e na hora das delícias, da cópula, do riso - seja num frame de filme ou bem na tua cara.
Na meditação ou no suor. Do lado de cá ou em Jerusalém.
Num gole, num upa, numa pegada.
Na transgressão ou no medo, mas sempre na ida e na volta.
No clima, na calma, na cama, numa árvore, no silêncio, na insegurança, na dor, mas nunca numa lojinha.
Aqui, acolá.
No mundano e no sublime, FELICIDADE é bom de dizer... a língua encostando no céu da boa, sai feito um assovio... ou num beijo.
Foto de Henri Cartier-Bresson, falecido hoje. Deus morreu, mas deixou muita felicidade registrada por aí. Ah, felicidade é. Felicidade pode ser.
Comments:
postado por: Bela Figueiredo 08:56
Terça-feira, Agosto 3
Urucubaca
Dessa vez não foi Gustavo que atrasou a estorinha da semana, mas um bode andou à minha espreita e fiquei doente. Por isso, planos, estórias e otras cositas mas, estão adiados, ao menos até que a teimosa nuvem negra que está rondando resolva sair de cima desta tosca cabecinha.
Eu que nunca acreditei em Inferno Astral e Retorno de Saturno começo a crer que essas tranqueiras devem mesmo existir.
Ele, O: Gustavo Machado:
A liberdade é uma picada letal
Dormiu a manhã inteira. Chegou à cozinha a tempo de assistir à explosão da cafeteira elétrica que estourou ao pico de energia provocado por raio. Detestava raios. Na rua, a chuva fina estragou seu penteado e encharcou as pontas dos sapatos vermelhos de couro escovado a aço. No táxi, orquestra pasteurizada da mesma FM da sala de espera do dentista e desodorante para automóveis. "Arg!", ela fez. Com o carro se arrastando como um animal ferido pelo trânsito congestionado da rua 24 de Outubro, manteve próximo ao nariz o punho perfumado da blusa de seda que saía da manga do longo casaco de couro. Os aromas do couro, do sache do armário, dos sais de banho, do creme hidratante e do seu perfume criavam uma barreira protetora ao cheiro do carro. Chegou. Bem próximo de onde estivera, na véspera, com Samir. Pagou. Desceu. A amiga Beth esperava no saguão do prédio. Beijaram-se as faces. Beth elogiou-lhe o casaco. Seria fácil e rápido, Beth garantia, no elevador. Um velho. "Nós duas e o velho?", Sophia quis saber. "Acho que é mais nós duas sem o velho", disse Beth, estourando uma bola verde de chiclete. O cheiro de hortelã artificial se espalhou e dissipou num passe de mágica. Aquela hortelã era uma afronta às folhas frescas do assado de Samir, no sábado. O elevador fez plim. Desceram. No fim do corredor, um homem magro abriu a porta. Entregaram-lhe casacos e bolsas. "Não capricha muito que eu gamo", Beth brincou ao pé do ouvido. Sophia riu. Mas não achou graça. Queria que fosse mais rápido que o possível. Queria que não fosse. Queria não estar ali. Queria sem táxi. Sem chiclete. Sem velho. Sem Beth. O velho estava na sala e nem era tão velho. Cumprimentou-as com um aceno. Tinha cara de estrangeiro e pele feia de varíola. Apoiava a mão direita numa bengala com castão prateado. Pele feia de varíola. Sophia saiu um pouco do ar enquanto coisas aconteciam à sua volta. Voltou. Qua ntos minutos depois? O velho continuava no mesmo lugar. Mas agora havia música e Beth com menos roupa tirando parte das suas. Esfregando. Beijando. Tentando. Viu a blusa de seda no chão. Viu os próprios seis nus. Sentiu-se tonta. Aproveitou que a amiga lhe beijava o pescoço e disse que precisava ir ao banheiro. Beth tirou o resto da roupa dançando diante do homem da bengala. Sophia fez o caminho de volta pelo apartamento gigantesco. Tomou do cabide suas coisas. A blusa ficara na sala. Azar. Vestiu o casaco sobre a pele, tomou a bolsa e saiu sentindo-se envenenada e livre.
Comments:
|