A Falsa Baiana

postado por: Bela Figueiredo 23:02

Quinta-feira, Julho 28

Contando um conto
Faz tempo que não publico as minhas estórias aqui.
Hoje me deu vontade.

Ode à sublime ação
Quatro da tarde, por aí. Um pouco de luz entra pela pequena janela. Apenas uma camisa branca sobre a pele crua. Joana está descabelada e sentada no chão do quarto. Olha para os pés e tenta qualquer idéia que lhe remeta ao futuro. Nem no fundo da xícara de café está a previsão. Intangível. Aperta um cigarro no cinzeiro e pensa no agora, na crueza de estar largada, solta. Livre.

No momento em deveria viver o luto da partida do primeiro homem, uns olhos de ameixa lhe perseguem com gana. Ela está sozinha admirando seu museu de emoções. Fotografias, bilhetes, um quadro na parede - o lugar-comum construído ao lado de Carlos. Enxerga todo o passado e para distrair idéias nada melhor que uma balada brega e argentina. É tão fácil abstrair...

Do outro lado da cidade, entre palavras e adoração, Renato pode estar tentando telepatia. Ou dormindo pesado ou caminhando nu pela casa ou lendo no banheiro. Talvez reze a Deus ou veja um filme na TV. Ou nada disso.

Joana não está só - há Renato com seus olhos-ameixa, romanceando a guerra. Ele luta contra quem? Que armas utiliza? Joana já perguntou. Ele não disse nada, nem precisava - basta para ela saber que Renato existe e que Carlos está partindo hoje mesmo. Tinha de ir um dia. E ela não vestiu o hábito, conforme prometido.

Joana trocou a força de Carlos por um rosto talhado com singeleza que depois do pescoço bem feito tem um coração necessitando cuidado e palavras ditas bem devagarinho para amar. Renato. Joana é quem parece partir para lugar desconhecido - as roupas sobre a cama, alguns objetos no aparador e um turbilhão de pensamentos rondando a escrivaninha. Não vai fazer as malas nem tomar sol ao lado de Carlos outra vez. Não quer as ondas dele, nem a perfeição estética. Está velha, mesmo tendo a beleza dos que morrem jovens. E para que serve o belo de fora senão para atormentar? Joana quer a essência, o avesso.

Para começar uma nova empreitada é preciso morrer, ela sabe. Prantear aquele amor lindo que viveu e que hoje está indo embora de verdade com vôo marcado e tudo. A beleza... tão caduca, prostituta. Idiota. E não sai nenhuma lágrima. Há amores natimortos e o de Joana e Carlos - mesmo que celebrado entre coxas, tremores de frio e línguas passeando pelo dorso - se esvaiu. Um amor que despontou póstumo, já que baseado tão somente em hálitos e formas.

Pílulas de reflexão mais uma vez, em doses homeopáticas. O corpo de Joana não apresenta qualquer sinal de pânico. Imagens lhe remetem ao saguão do Aeroporto Salgado Filho. Vôo meia meia alguma coisa. Carlos talvez esperasse que Joana fosse se despedir. Não foi. A noite, ontem, com Renato, lhe deu coragem. Engraçado, agora, Carlos era o outro. E Renato, o um.

Joana sempre se questionava de que forma se apresentaria o amor depois de Carlos. Seria sólido de mãos fortes? Rústico, imperativo? Esperava que sim, aliás, como esperava... Talvez fosse mais prudente agir. Até então, todos gasosos, amorfos. E tem de ser úmido, parrudo, sabor ocre, aroma de nicotina. Veio com o nome de Renato e uma fita grudada na testa escrito: "Cuidado. Frágil". Nem tudo é novela das oito.

O sol está descendo do telhado do apartamento, quando Joana se deita no chão. Esparrama por ali alguma delícia. De barriga para baixo, o queixo no parquê. Examina o mosaico do chão. A vista está embaralhada. Então, arrasta-se até o criado-mudo e pega um bloco. A folha permanecerá virgem. Ela não conseguirá desenhar os cabelos pretos de Renato, a aura, a envergadura. Ele não é um hipócrita fácil de descrever. Puxa firme, segura, o Renato. Algumas imagens chapadas do buraco que se meteram ontem fizeram com que Joana suspirasse. O moço de casaco verde, sem farda nem arma. Olhos cor de ameixa, torneados por sobrancelhas duras, espessas. Como o olhar dele lhe fascinava...

Largou o bloco e examinou a ferida no joelho. Logo criaria uma casquinha que, em seguida, cairia e tudo bem... Será que ficaria alguma marca? Outros tombos viriam e os machucados também, depois a casquinha, que cairia e outra e outra e outra vez até que fosse inventado um novo remédio.

Cutucou a ferida com o indicador. Mercúrio para colorir, disfarçar. Acabou derramando o líquido no chão quando ouviu as palmas lá fora. Foi até a frente do prédio e Renato estava lá, armando a estratégia. Podia entrar sim, o lenhador e seus tocos de delírio. Trouxe a lenha, Renato, e bateu palmas porque não sabia assoviar, explicou à Joana. Subiram até o apartamento dela e a camisa branca se atirou no chão. Celebraram, Renato e Joana, o amor em memória de Carlos. Queimaram tudo, quando o sino da catedral lhes chamava para o ofício sacrossanto. Comments:

postado por: Bela Figueiredo 13:58

Quarta-feira, Julho 27

Não jogue papel no vaso
Ganhei do meu amigo Caco Belmonte "Contos para ler cagando", "Contos de bolso" e "Fatais", os dois últimos produzidos em conjunto com outros escritores gaúchos e editados pela Casa Verde.





Por óbvio, o "Contos para ler cagando" não sai do banheiro aqui de casa. Agora temos livros no lugar de "Lush Times" [que eu julgava perfeito para ocasiões embaraçosas à patente], Veja da semana, rótulos de dentifrício ou embalagens de papel higiênico que sempre acabavam me salvando, pois é melhor não pensar no que se está fazendo ao toilette, ok?

Ah, e o melhor: Caco tem muito de Fernando Sabino. Finalmente alguém percebeu. Comments:

postado por: Bela Figueiredo 20:38

Terça-feira, Julho 26

Diferente de Chico Buarque
Duas imagens da festa porque ainda tô montando o álbum que, obviamente, será Para Poucos.


Ana, minha irmã de sangue e alma e eu


Panorâmica Comments:

postado por: Bela Figueiredo 11:09

Sábado, Julho 23

Minha festa de despedida
Amigos,
Tô de mudas pra São Paulo no final do mês e vou reunir os amigos hoje, 23.
Horário: 21h [tem que chegar cedo senão fica bêbado em pé]
Onde: Prefácio [Sarmento Leite, 1024 - perto do Zelig, Bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre]

Como dizia o poeta: "então vamos pra vida!"


Serigrafia de Juan Antonio Morales



Mais do mesmo Juan Antonio Morales Comments:

postado por: Bela Figueiredo 12:25

Segunda-feira, Julho 18

Bela no show Livre da UOL
Hoje estréio como colunista do Show Livre do UOL. Para acessar a minha coluna basta clicar em cima do seu título Qual é a música?
Comentem aqui, por e-mail, enfim. Ô não.
Bacio per tutti. Comments:

postado por: Bela Figueiredo 18:08

Sexta-feira, Julho 15

POA/SP
Maurício Capellari é o cara. Meu fotógrafo preferido. E aqui homenageamos Porto Alegre e São Paulo. Ele nasceu na megalópole sestrosa, eu na cidade charmosa. Mau fotografa. Bela escreve. Agora ele fica aqui, eu vou pra lá e viva a impermanência!

Ah, o comercial: contato do Mau, fotógrafo e amante profissional: +55 51 3019-9367.

Confiram as fotos dele. Falem com ele: maubina@terra.com.br


"Luzes em raios de roda de bicicleta", conforme o poeta. Cais do Porto, Porto Alegre




Quando o sol se põe em Porto Alegre as palavras encerram o expediente mais cedo




Dramática. Estação da Luz, São Paulo




Oscar Niemayer é deus. Edifício Copan, São Paulo Comments:

postado por: Bela Figueiredo 20:48

Quinta-feira, Julho 14

"Quem está por fora não segura um olhar que demora"

Não é fácil pra mim escrever isto, mas faço porque este é o meu espaço, aqui me espalho, digo, vocifero, entrego. Só não me abstenho.

Hoje à tarde fui à apresentação artísitica do projeto Vivendo e Reaprendendo, de Porto Alegre, que reúne portadores de sofrimento psíquico, do qual a minha irmã mais velha faz parte.

Homens e mulheres de diversas classes sociais, idades, com dificuldade de se comunicar com o mundo externo e interno dançaram e cantaram com uma força de arrebentar. Os problemas motores e de fala e o sem fim de limitações por que são acometidos desapareceram quando o primeiro acorde tocou.

Após ensaios exaustivos realizados durante o semestre, não só minha irmã Graça e Luiz, seu par, mas outros vinte pacientes do projeto entregaram a familiares e amigos o resultado do seu persistente trabalho. Para eles é especialmente difícil lidar com o corpo e com as pessoas, mostrar o rosto que, tristemente, é desdenhado. Por quê? Porque esquizofrênicos, em particular, têm um aspecto marcante: um olho te olha e o outro olha pra fora do mundo. E se prestássemos mais atenção a essa característica, talvez fôssemos mais pacientes e generosos. Eles estão um pouco aqui, um pouco lá e acabarão cada vez mais longe se nós, os "normais" [que coisa triste essas gavetinhas sociais], não olharmos bem dentro dos seus olhos.

Permanecendo embotadas pela arrogância, desprezo e medo [sim, muitas pessoas têm medo dos doentes mentais] estas criaturas que já sofrem extremadamente, que têm direito à felicidade e, sobretudo, a uma vida digna, acabarão pousando seu olhar cada vez mais longe a ponto de se perderem de vista.

Quem assistiu hoje ao grupo Vivendo e Reaprendendo testemunhou que doentes mentais respondem muito bem à dedicação e ao amor e que loucos são os rechaçam o diferente. O diferente é revelador. Basta olhar. Comments:

postado por: Bela Figueiredo 02:44

Aos mornos o forno!

Vamos estudar o caso.
Maturar.
E que seja quente
ou frio
pois o lugar do morno
é no forno. Comments:

postado por: Bela Figueiredo 00:54

Quarta-feira, Julho 13

Não trabalhamos com virtuose. Somos amantes. Passe mais tarde pra falar com os especialistas

Não uso retóricas nem figuras [sejam elas de artistas ou de linguagem] pra dizer quanto, como e quem amo. E vou dividir com vocês uma carta escrita pra um homem que me conquistou pela Internet. E tirem esse nariz torcido do rosto porque existe Amor Virtual sim! Troquem os spams idiotas por Carpinejar. Ele também escreveu sobre o tema. E até a minha mãe, uma cética para o amor internético disse: "Sem dúvida, estou velha. Olho mais os perigos do que para a beleza. Fiquei encantada com o texto do Carpinejar".

Bom, eu não participo de jogos. Falo abertamente. Por isso, digo que amo as letras que o piano do msn produz. Mas não me refiro aqui aos bits e bytes de qualquer pessoa, mas às letras de um homem específico, inteligente, que tem cara de sono, é doutor mas escreve como poeta. Escrevo pra um indignado que ama, sobretudo, a si mesmo. Um paxá que merece ser cortejado, bem tratado. Escrevo pras letras de um homem que, uma a uma, na tela do computador se transformam em amor.

Há bastante tempo atrás produzi "Dentes quebrados" e o texto está tão atual. Incrível isso. Reli, reescrevi inteiro [uma trabalheira!], enfim, sempre tem uma aresta a aparar aqui e algo a acrescentar ali. E agora entrego a vocês a minha homenagem ao meu amor virtual. Não poderia homenageá-lo com um e-mail pessoal porque um rei merece pompa e circunstância além de uma horda de súditos aos seus pés.

*
Eu fiz esse tanto pra ti e o Cazuza que era exagerado? Bobagem... no amor e na falta de, tô pra ti. Sou tua e fumo demais e bebo sem sentir o gosto. Viveria contigo pra nunca mais, pra todo dia e nas horas mortas de Machado de Assis morderia a batata da tua perna. E ouviria teu silêncio, faria sanduíches de pão quentinho, compraria bourbons de primeira, te besuntaria com os cremes caros que mereces, rasgaria seda, poria fora todo o meu dinheiro. Bateria meus dentes nos teus e sempre e depois de tudo te faria cafuné, te mimaria.

Quero te amar agora e sempre e depois que meus peitos caírem também. Se não der pra falar amanhã, desculpa, eu saí pra uma sessão de fotos dissimulando alegria, vendendo hipocrisia. Espero aturdida sobre saltos que me dão vertigens que tu venha pra mim e se não for tu, que seja outro e se o outro não der certo ainda haverá mais outro e mais outro... Mas prefiro que seja tu porque a vida é turva, chata, uma chacota e tu clareia, troca pouco por demais, silêncio por rock and roll.

Então, me pinto de todas as cores pra depois, quem sabe, despercebida, fazendo de doida, te visitar. E nua, no dia do nosso encontro, viraria a bunda pra ti, fingindo dormir, ouvindo teus silvos e cânticos.

Não sei se te agradeci por cair de pára-quedas bem no meio dessa minha vidinha enjoada com previsão de tempo nublado e chuvas no decorrer do período. É melhor que ler, conversar com os amigos, ouvir Nina Simone, escrever mentiras, passear no parque, olhar pro sol ou rebolar minha sainha de chita.

Mantas de gordura ou cashmiere. Tanto faz... A gente não se faz. Estamos feito um contorno sem preenchimento. Uma tela em branco. O que virá? Como se apresentará? Semana que vem termina? Não sabemos. Ah, o porvir... Contudo, agora-hoje-nesse-exato-momento tenho pra ti, apenas, beijos entre colchetes ou aspas, como queira. Comments:

postado por: Bela Figueiredo 00:58

Segunda-feira, Julho 11

Sampa sem tampax

A idéia é escrever quatro parágrafos sobre a mesma coisa. E a "coisa" escolhida é minha nova vida.

É tão engraçado - ou espantoso, não sei - mas não tenho dúvidas. Morar em São Paulo é tão certo quanto dois e dois são quatro. Algo que era uma idéia torcida, imprecisa, ficou alinhada e mudar de cidade vai ser como apanhar umas flores no supermercado, passar no caixa - pagar porque nada é de graça nessa vida -, sair do supermercado, transportar as flores numa sacolinha de plástico cuidadosamente até minha casa e depois colocá-las num vaso com água, deixando a casa linda outra vez. É isso: só tenho que embrulhar roupas e sapatos, cosméticos, umas bijoux mais uma imagem de Santa Rita e não esquecer da carteira de identidade [é sempre bom saber exatamente com quem estamos lidando].

Chegando lá, arrebentar a frieza do concreto com um sorriso enorme que eu tenho guardado e sempre prestes a entregar que sou uma criatura alegre e isso irrita, às vezes. Aí, olhar praquela puta-velha e dizer: "ok, amiga, sou nova nessa parada, me ensina uns truques?". E fora correr atrás de jobs, ver filmes com Miguel, procurar tecidos com o Fer, respirar monóxido de carbono combinado com 1.905 milhão substâncias terríveis e trocar "bah" por "então", a vida será como minha vida seria em qualquer outro lugar do mundo, seja Tokio ou Cuiabá: ouvir música, ler, escrever, comer, pensar, checar e-mails, postar aqui na Falsa Baiana, entristecer e depois ficar feliz de novo, tomar banhos demorados, ter TPM, passear no parque, beijar uns bofes - me apaixonar, talvez -, tomar café na padaria, encontrar os amigos [que serão outros, mas enfim, pra ter bônus é preciso arcar com os ônus], fumar, sofrer de tédio, sentir saudades.

Então estarei acostumada com o ritmo frenético, talvez chore no telefone com a mãe, verei os cachorros e Pantufa pela web cam, minhas irmãs me mandarão mensagens queridas pro celular, terei ido algumas vezes almoçar no Ritz que adoro, meu novo trabalho será incrível, o pai me dirá coisas bonitas, Miguel pedirá empréstimos e drinks, Fer estará mais elétrico que nunca, terei visto exposições, filmes, gentes, placas de rua e continuarei com a mania de somar números e dividir por três. Aí será 13 de setembro, terei feito aniversário dia 14 de agosto não tão longe de casa [uma hora e meia pour avion], e nos dias 14 e 15 estarei em Porto Alegre outra vez para trabalhar e distribuir abraços e beijos.

Por fim, voltarei a São Paulo, Miguel e Fernando estarão afoitos me esperando no desembarque, beberemos alguma coisa num boteco, tomarei um banho em casa e vestirei meu pijaminha. E bem acostumada em respirar a poluição direi com uma naturalidade incrível: fique com o troco. Comments:

postado por: Bela Figueiredo 15:19

Sábado, Julho 9

Varal
Tem sol e vento e me pego, surpresa!, suja de mim. Manchada por meus sonhos e feitos, desejos e medos [ah, esses amigos que vivem brincando de espelho...]. E não existiria asseio existencial sem o fazer diário, encontros e questionamentos... Sempre tudo tão masculino nessa menina, criança irritada com sua condição, querendo ser adulta, já aos oito anos. E hoje, 80 anos depois [nasci com 60, pronta, velha], o que quero dizer, digo silenciosamente, uma nota abaixo do tom porque se soltasse a voz, os seus tímpanos explodiriam.

Tem sol e vento e avento a possibilidade de mudar outra vez de cidade, trabalho, padaria. Arejar.

Tem sol e vento e quero as coisas mais limpas por isso vou dizer que tentando incomodar, retrucar ou sei lá o que, meu ex me presentou com lindas fotos de que eu tinha saudades. Grazie.

"E por falar em saudade" tem sol e vento e os cães dormem ao meu lado e já sinto saudades, mesmo antes de partir. Aliás, tenho saudades, inclusive, do que não vivi.

Tem sol e vento e preciso aproveitar o bom tempo pra estender uma roupa. O resto fica pra depois, quando o tempo nublar. Comments:

postado por: Bela Figueiredo 18:42

Quinta-feira, Julho 7

Direto de Londres!
Não temos as bombas de Londres, mas temos Mensalão, guerrilha civil nas favelas, pobreza galopante, mofo nos tapetes azuis e verdes de Brasília.

Meu amigo Eduardo Oliveira, o popular Pinto, é jornalista e fotógrafo gaúcho. Mora em Londres, no Hoxton, e enviou um depoimento sobre os acontecimentos desta madrugada na terra da rainha.

Confira!

A Falsa Baiana também é Gonzo Jornalismo.

"Cheguei na casa da minha namorada eram mais de cinco da tarde. Vim caminhando desde Saint Paul's até Regent's Park (uma hora e meia andando). Os ônibus não estavam circulando nas ruas, o metrô foi suspenso, todas as 11 linhas e também a maioria dos 'overgrounds trains' (as linhas convencionais, de superfície). No caminho, passei por King's Cross e Euston, duas das estações que sofreram os ataques de hoje de manhã. Havia policiais e bombeiros por toda parte. Cheguei até a pensar em esticar a caminhada até Russel Square onde o ônibus explodiu, mas desisti quando me dei conta do tamanho do desvio que teria de andar por causa dos cordões de isolamento. A polícia cercou completamente a área. Só entravam ambulâncias e carros da polícia. Nem a imprensa entrava, o que justifica talvez a falta de clareza das informações em relação ao número de mortos e feridos e as reais cirscunstâncias dos atentados. Falou-se em 30, 33, 31 e agora parece que estacionou em 37 mortos (tomara que não passe disso).

O clima nas ruas é tenso. Muita gente, mas muita gente caminhando, a maioria se dirigindo às estações de trem na esperança de que a suspensão dos transportes durasse só mais algumas horas e consiguissem voltar pra casa.

A expressão nos rostos de cada uma das milhares de pessoas que passaram por mim era a mesma, revelando um misto de indignação e surpresa. Algo parecido com aquela cara que a gente faz quando descobre que bateram nossa carteira, sabe? De não estar acreditando no ocorrido.

O caos só não tomou conta porque as mais de duas décadas de atentados a bomba do IRA fizeram da força policial inglesa uma das melhores do mundo para lidar com esse tipo de situação. Controlaram tudo de maneira perfeita. Não perdem a calma um instante sequer. Até para chamar a atenção de quem tenta furar o cordão de isolamento eles pedem 'excuse me'. Com o trânsito, fazem milagre - apesar das longas filas, o tráfego flui.

Até este momento eu ainda não havia visto os reais estragos dos atentados pois só tinha escutado rádio durante a manhã. Só me dei conta do tamanho da tragédia quando cheguei em casa e vi a imagem do que restou do double-decker bus. O teto foi arrancado como se fosse de papelão, mas o frio correu na espinha quando vi a linha atingida, a 30, ônibus que normamente pego pra vir da minha casa até a da Luciana, minha namorada. Graças a Deus nunca precisei pegar ele naquele horário.

Só pra situar mellhor: a linha 30 corta Londres sentido leste-centro e vice-versa. Sai de Hackney, no leste e vai até Marble Arch, na frente do Hyde Park, onde no último sábado aconteceu o Live 8, parece até ironia. Mas o mais irônico é que Hackney é um bairro de maioria negra e muçulmana. Muçulmanos de vários paises, a maioria deles da Africa. É um bairro de 'working-class', gente pobre, que acorda cedo pra trabalhar.


Depois de sair de Hackney, o ônibus passa por Hoxton, onde moro, e que por uma infeliz coincidência fica a cinco minutos de ônibus de Liverpool Station, outra das estações atingidas. Minha namorada mora bem entre Edgware Road Station e King's Cross, também parte do trajeto. Às 8h45min, quando a bomba foi detonada em Russel Square, ela estava em casa dormindo e eu em Holborn, dentro da Linha 25, a 300 metros do local da explosão.

Na TV, agora há pouco, as autoridades pediram aos londrinos que saiam de casa amanhã apenas se absolutamente necessário. Não querem alarmar a população, não divulgam informações precisas sobre os atentados e não querem arriscar terem de lidar com uma nova tragédia amanhã. Mas e depois?? E sábado e domingo, como vai ser?? Hoje eu conheci o verdadeiro sentido da palavra "terrorismo". Até então eu achava ela era apenas um nome para ilustrar atentado à bomba. Estava enganado. Terrorismo é o que vem depois das explosões, é o medo de sair de casa, o medo de levar uma vida normal e ser mandado pelos ares quando me dirigir para o trabalho."
[Eduardo Oliveira, o Pinto]

Veja as fotos:


Ambulâncias vindo em comboio [foto de Eduardo Oliveira]




Áreas completamente isoladas [foto de Eduardo Oliveira]




Local do atentado [foto de Eduardo Oliveira] Comments:

postado por: Bela Figueiredo 00:34

Quarta-feira, Julho 6

Há alguns dias, eu tnha uma chaga no peito que, misteriosamente, se fechou. Hoje, tenho Fernando e Miguel, meus lindos, partners.

Acordei com dor na coluna e vou dormir sem lacunas. A rima é vadia, mas verdadeira. Não sou mulher de depois. Resolvo tudo com Beserol e conversa franca.

Estou ansiosa e não vou dizer o motivo, contudo, preciso dizer, escrever e "chega de conversa mole/ pára/ cala a boca e me beija".

Escovar os dentes, rezar e dormir, afinal, as abóboras se acomodam conforme o andar da carruagem. Comments:

postado por: Bela Figueiredo 03:06

Segunda-feira, Julho 4

Três e cinco da madrugada de segunda-feira. Dormi de tarde e não tenho sono...
Frio em Porto Alegre [já tava na hora].
Os amigos que estavam on agora se transformaram em offline.
Tô dando uma olhada nos Meus Favoritos e fui visitar a maravilhosa Jana Magalhães em seu Ludicices e olhem o que eu achei: http://www.ludicices.com/content/ilustras/coisasqueamo/fotos.shtml. Muitas das coisas que ela ama eu também amo: lavanda, chuvinha, andar de bicicleta, pensar, caderninhos de anotação, grampinhos, flores, sobrados... Amo ainda o que não conheço, as pessoas [matéria de meu maior interesse], cosméticos, Clight de tangerina, cães e gatos, revistas, plantas, deitar na rede, praia de manhã cedinho, desabotoar a blusa, ficar descalça, ler, falar, ficar quieta... Comments:

postado por: Bela Figueiredo 16:23

Domingo, Julho 3

Sabe, esses dias eu me dei conta de que não tenho problemas e isso me deixou aflita. Como uma pessoa dramática feito eu pode viver sem um probleminha sequer? A minha família é incrível, a saúde anda bem, me divirto facilmente, o trabalho que tenho é o que pedi a Deus, escrever me faz alegre, viva! Ainda por cima tenho amigos queridos, boa música e literatura. A conta no banco não é lá essas coisas, mas não posso reclamar. E tudo flui... Além disso, novas possibilidades não me dão abanos de miss, mas me agarram pela cintura, dizendo vem pra cá agora!

Hoje foi dia de tomar café da manhã com a Ana na padaria pertinho de casa, ler a porcaria do jornal diário local que só requenta as notícias e não traz nada novo, ir pra Redenção, passear pelo Brique e encontrar a amiga Greice que feliz da vida noivou na Toscana. Almoço no Don Diego com o pai e muito papo com café.

Reclamar do que, hein? Comments:

postado por: Bela Figueiredo 00:57

Sábado, Julho 2

Utilidade pública
Sábado é dia de negligenciar o almoço e tomar café bem mais tarde, perambular de pijama pela casa, caminhar no parque, ligar pra mãe, tomar chimarrão, ir à feira, ler livros [repito: os jornais estão um saco], tomar suco de fruta, passear com os filhos de alguma amiga e levar os cães junto, andar de bicicleta [quem não tem - como eu - que alugue uma], ver filmes em casa, comprar revistas, encontrar os amigos... Então sai da frente do computador e vai pra vida! Comments:

postado por: Bela Figueiredo 00:22

Sexta-feira, Julho 1

Prestação de contas
Buenas, o último post antes do primeiro da segunda fase [uh! sou péssima com contas e palavras] falava de tsunami. E o que andei fazendo nesse período de cinco meses (a medicina já consegue salvar bebês nascidos com apenas cinco meses de gestação)?
Vamos de listinha:
- Mudei de casa e agora moro com as minhas irmãs Ana e Inês + filhos Mousse, Pantufa [antigos conhecidos de vocês], Zig e Ronaldo [dois cães]. Os irracionais, graças a Deus, estão em vantagem nesta casa.
- Meu cabelo cresceu e algumas idéias junto.
- Tive dor de garganta.
- Encontrei meu psicólogo na rua [eu que sempre pensei que ele desaparecia quando eu fechava a porta do consultório].
- Ri escancaradamente.
- Não tive medo do novo.
- Beijei meia dúzia de caras, alguns até bem bacanas.
- Criei a Assessorama Comunicação & Planejamento, empresa da qual sou ama e senhora.
- Dancei e almocei no Ocidente, rebolei e dormi no Vegas, bebi no Muffulleta e Ritz e tomei sopa no Van Gohg e na Padaria Bella Paulista.
- Fiz trocentos planos e salve! tive poucos enganos.
- Fui acometida por uma paixonite aguda.
- Revi amigos de adolescência.
- Perdi e ganhei muitas horas no msn.
- Comprei cosméticos, meias e Coca Light.
- Mudei a marca do cigarro e voltei pra antiga [sou mesmo uma mulher de princípios].
- Me enjoei de algumas pessoas e degustei outras.
- Baixei todas as músicas do Damien Rice.
- Assisti: "Minha vida sem mim" -> lindo; "Sideways" -> ótemo; Segunda-feira ao sol -> indico aos direitistas; e "Closer" -> soco na boca do estômago, além de outros vários que não cabe listar.
- Vi minha afilhada em Floripa.
- Escrevi, como sempre.
- Andei enjoada, uma época, mas já passou.
- Vivi dias eufóricos e não passou.
- Jantei com meu pai, menos do que deveria. Ele é a companhia perfeita.
- Almocei e rezei com a minha mãe.
- Tomei muitos cafés no maravilhoso Feito à mão.
- Usei mais meu roupão branco atoalhado [leia-se: tive mais tempo para o desfrute e basta querer para poder].
- Não paguei a conta do celular, depois paguei.
- Estive na casa do meu querido Miguel em São Paulo, onde fui tratada como mereço: feito uma rainha.
- Trabalhei em Gramado e andei por aquelas ruas floridas.
- Conversei cem mil horas com a Inês e a Ana.
- Li revistas, livros, blogs, bulas de remédio e rótulos do papel higiênico. Os jornais diários, em geral, são chatos.
- Dei refresh no Orkut.

Ah, e como eu poderia esquecer; comprei sapatilhas pretas que me fazem leve feito uma bailarina! Comments:
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